25 de Abril de 1974
 


Homenagem aos militares do Batalhão de Caçadores 5, que às 3 da noite de 24 para 25 de Abril sairam para ocupar o Rádio Club e o Governo Militar de Lisboa,  e que teriam ficado completamente isolados no meio da cidade se o 25 de Abril não tivesse vingado.

 

              25 de Abril de 1974

     ( Escrito em Abril de 2004)

 

Uma irmã minha telefonou-me de madrugada a dizer que a rádio noticiava que a cidade estava cercada. Pouco depois, estava na rua, com o passaporte, uma gilete e dinheiro no bolso, depois de me despedir de minha mulher e dizer que voltaria quando pudesse. Sabia por experiência própria que a polícia prendia de madrugada e que o sítio mais seguro para se estar era na rua. Não tinha grande actividade política, mas se a cidade estava cercada era natural que a polícia começasse a prender e o meu nome podia estar numa lista.

Fui pela Guerra Junqueiro tomar o metro da Alameda e desci na Praça da Figueira. A cidade estava excepcionalmente calma. Ao longe, no início da rua da Prata, pareceu-me ver alguma agitação. Fui até lá. Na rua transversal junto à sede do Banco de Portugal alguns populares falavam com uma pequena tropa equipada com capacetes e cartucheiras. Pensei que eram tropas do governo a defender o Banco.

Cheguei ao pé do graduado e disse-lhe: "Vocês não vão dar tiros, pois não?" . Ele bateu nas cartucheiras e disse. " Se derem tiros em nós, nós damos também."

Fui até ao Terreiro do Paço onde havia militares junto a umas auto-metralhadoras. De repente, notei que as viaturas eram da Escola Prática de Cavalaria, de Santarém, onde tinha feito a tropa. Como era possivel estar ali uma unidade móvel de fora de Lisboa a defender os Ministérios?  Cheguei ao pé de um militar e perguntei-lhe: "Vamos lá a saber, vocês estão aqui para defender o governo, ou para derrubar derrubar o governo?" Ele começou-me a explicar: " Isto é a repetição do 16 de Março……." ."Parabéns, soldado."

Resolvi ir ver o que se passava do lado da pide. Segui pela rua Nova do Almada e subi a rua Garrett pelo passeio do lado direito. No topo, à entrada da António Maria Cardoso, um grupo de individuos, pides à vista desarmada, tinham imobilizado um eléctico e falavam e riam francamente nervosos. Cheguei até perto da Brasileira, mas considerei que a boa prudência aconselhava a voltar para trás. 

Fui então até ao largo do Carmo ver o quartel da Guarda Republicana. Sabia por tradição republicana que ali se decidiam muitas revoluções em Lisboa. Quando lá cheguei, tive a sensação de estar a sonhar. Uns raros transeuntes passavam no largo e, pachorrentamente, em frente do quartel, a sentinela andava de um lado para o outro com a canhota ao ombro. Como é possivel? No Terreiro do Paço estão tropas revoltadas. A pide está alerta na António Maria Cardoso e aqui é esta calma!

Fui até ao Rossio. À entrada do metro estava um letreiro escrito à mão a dizer que a composição não parava em São Sebastião da Pedreira. É lá o Governo Militar de Lisboa. Era uma confirmação. Resolvi voltar de metro a casa. Quando passei na partelaria Copacabana, na Guerra Junqueiro, era já um frenezim. A rádio tinha alertado a cidade.

 Em casa, com minha mulher, resolvemos ir dar uma volta de carro. Perto de São Sebastião da Pedreira havia tropas na rua. Um soldadito com um fular ao pescoço desviava o trânsito visivelmente feliz a dizer: "Não se pode passar."

Quando o carro lhe parou ao lado a minha mulher perguntou-lhe: "São ordens do Estado Maior?". Ele respondeu: " Não minha senhora. O Estado Maior já não manda nada. Aqui quem manda somos nós."

António Brotas

.