A evolução da língua ou, a “ota” de Vasco da Graça Moura
 

A língua portuguesa evolui de um modo diferente nos vários paises em que é falada. E às vezes muito rapidamente. É assim duvidoso que os brasileiros recém chegados a Portugal tenham  podido compreender  o título “Uma ota ortográfica”, do artigo publicado em 28 de Maio no “Público” por Vasco da Graça Moura.  É possivel que, daqui a dez anos, os dicionários dêm à palavra “ota” o significado com que VGM desde já a usa.  Se tal suceder, como co-autor do livro “O Erro da Ota” , ficarei muito honrado por ter contribuido para o enriquecimento da língua portuguesa (em Portugal) . É, no entanto, provavel que a palavra só tenha uso  na linguagem corrente com o significado de “elefante branco”, tal como “Convento de Mafra”,  “estádios de futebol” ,  ou mesmo “Porto de Sines” (neste  último caso injustamente porque o Porto de Sines ainda pode ser um dos  factores  importantes  do nosso desenvolvimento). Tudo expressões que os falantes dos outros paises não compreendem.  Nem sei se os angolanos, por exemplo, dizem “elefante branco”.  Possivelmente, um dia dirão: “pakassa negra”, ou algo no género, escrevendo com K.  Nada disto é importante, nem pode ser significativamente alterado, nem para melhor, nem para pior, pelo anunciado acordo ortográfico.  O que pode ser grave e prejudicar a língua são algumas medidas  recentes   tomadas por entidades que a deviam defender. Todos sabemos que as crianças têm uma grande capacidade para aprenderem línguas e as esquecerem logo a seguir . Algumas são capazes de aprender inglês com os bonecos animados.  Nas nossas escolas o inglês, que tem uma gramática rudimentar,  passou a ser ensinado antes dos alunos dominarem minimamente a gramática portuguesa bastante mais complexa.  Como ninguém espera que eles vão para o recreio conversar em inglês  com o inglês que lhes ensinam nas aulas,  o resultado pode ser, unicamente, o de muitos deles  nunca mais aprenderem os verbos portugueses. O Ministério da Educação devia mandar fazer uma muito séria avaliação dos efeitos  deste ensino.  Registe-se, que num curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras de Lisboa, foi suprimida nos verbos  a segunda pessoa do plural.  Se os diplomados por este curso forem à aldeia da Beira onde onde nasceu  Eduardo Lourenço e ouvirem, por exemplo, a pergunta  “ides a Lisboa?”, julgarão que lá se fala um português incompreensivel e degradado.

 

                        António Brotas

 

     (Publicado Como Carta ao Director pelo Jornal Expresso)