As Aulas de Substituição
 
Eu fui um professor privilegiado. Ao longo da minha carreira, primeiro como assistente do Técnico, depois como professor no Brasil, na Argélia, na Escola Naval e depois de novo no Técnico, dei sempre as aulas que muito bem entendi, sem nunca ter de seguir um programa que alguém me quisesse impor. A primeira vez em que tal sucedeu foi na tropa, quando eu e um tenente fomos designados para dar um curso de cabos rancheiros. O tenente disse-me: "Vamos dividir o trabalho. Eu faço os horários e você dá as aulas". E começou a enumerar as matérias: "Regulamento de Disciplina Militar,". "Não conheço.". "Não conhece? Não fez o Primeiro Ciclo de Oficiais Milicianos onde é ensinado?" . "Não. Fui dispensado porque vim do Colégio Militar onde nunca aprendi essa matéria". O tenente teve de aceitar o facto. Deu ele próprio as aulas de RDM e eu dei todas as outras. Os alunos eram só quatro, todos pescadores. Para rancheiros eram escolhidos pescadores porque sabiam distinguir os peixes. Eu ensinei-lhes o que quis e me pareceu que seria útil para eles: História, Geografia, um bocado de Física, mecânica auto; fomos à cozinha onde teriam de trabalhar e treinei-os a fazerem pesagens, contas, relatórios e a responderem a questionários. Até lhes ensinei algumas coisas militares. Foi um prazer.

Agora, já jubilado, não tenho alunos e as Universidades sem a obrigação de dar aulas, são, de facto, sítios admiráveis. Mas, às vezes, tenho algumas saudades. Gostaria de voltar a dar aulas, mas de níveis e matérias totalmente diferentes. Eventualmente aulas de substituição no Secundário, ou no Preparatório. Por exemplo, de Gramática a alunos do 6º ano de escolaridade.
Imagino-me a chegar a uma aula e a dizer a alunos de 12 anos: "Fui destacado para vos dar uma aula de substituição de Gramática, mas aprendi Gramática há tanto tempo que já esqueci quase tudo. Só vos posso dar a aula se me ajudarem.". "Vamos tentar começar pelo princípio. Vocês sabem o que é um substantivo? ". Vamos arranjar uma definição. Não precisa de ser muito boa, mas deve permitir às pessoas saber o que é um substantivo". E continuaria: " Agora que todos sabem o que é um substantivo, vão fazer um exercício. Nas fotocópias da página de um livro (ou de um qualquer outro texto), em grupos de dois, com uma caneta feltro, vão cobrir todos os substantivos que encontrarem. Quando tiverem dúvidas, perguntam ao grupo ao lado. Se a dúvida for grande, discutimos todos". Depois, viriam os adjectivos: a definição e o cobrir com a caneta feltro. Depois, perguntaria: "Como se chamam estas palavras pequenas que aparecem ao lado dos substantivos?". "Artigos!". "Arranjem uma definição e, como são poucos, façam uma lista com os que estão aqui e com outros que conheçam".
Acho que daria assim a minha aula. Se, no final, os alunos tivessem vontade de continuar, a aposta estava ganha. Se a experiência continuasse duas semanas, podíamos escrever uma gramática. Só depois de sentirmos ter chegado ao limite das nossas possibilidades aceitaria na aula uma gramática impressa, para ver o que tinha de diferente e em que é que ia além daquilo a que tínhamos chegado.
Este texto não é um mero devaneio de um professor jubilado. Foi escrito a pensar no futuro do nosso ensino e foi estimulado por uma notícia recente: a de que muitos professores subscreveram um texto a protestar contra a obrigatoriedade de darem aulas de substituição sem para isso terem sido preparados. Esta notícia mostra a que ponto o nosso sistema de ensino se transformou numa gigantesca máquina atrofiadora, não só de estudantes, mas também de professores.
Os professores que não se sentem preparados fazem bem em protestar e há que tomar medidas. A primeira é, naturalmente, a de incluir nos cursos de formação de professores componentes que os preparem e lhes dêem o gosto de dar aulas de substituição. Mas é preciso muito mais. É preciso transformar as escolas em espaços de invenção e criação. Os melhores professores sempre o souberam fazer ao longo dos tempos, muitas vezes sub-repticiamente, mas, agora, estão quase impedidos de o fazer dado peso dos programas.
A medida que proponho é , assim, simples e nem sequer custa dinheiro. É a de que o Ministério a aceite a regra de preparar programas correspondentes só a dois terços das aulas, e aceite serem os professores a definirem localmente as matérias e o modo de darem as aulas restantes, incluindo a sua avaliação. Considero ser o melhor modo de valorizar e dignificar a profissão docente , e de transformar as escolas nos espaços criativos de que a sociedade precisa.