Bunker de Lisboa

(ou a Pedreira dos Húngaros)


Em recordação de  Mário Viegas  e César Monteiro

Trabalhos de investigação recentemente desenvolvidos no IST em colaboração com Universidades estrangeiras permitiram construir o primeiro prototipo operacional de uma máquina capaz de ler os pré-pensamentos,  isto é, os  pensamentos de que os observados ainda não se não aperceberam. Numa atitude ousada, própria de quem deseja ultrapassar grandes atrasos, a nossa Universidade deixou para outros centros o  estudo das  máquinas capazes de ler os simples pensamentos.

As observações exigem o uso de antenas sofisticadas que têm de ser disfarçadas para não serem vistas pelos observados, pois tal perturbaria, naturalmente, os seus pensamentos e pré-pensamentos.

 Os primeiros trabalhos de campo decorreram na Avenida de Roma tendo a primeira pessoa observada sido, por pura coincidência, o realizador Cesar Monteiro que estava sentado à mesa de uma esplanada. Depois de tratados com um software poderoso os registos obtidos forneceram-nos indicações, não sobre o próximo filme em que este realizador está a pensar - em que, parece, irá a Paris com o intuito de ser rico - ,  mas sobre o outro a seguir  em que abordará a sua situação após o regresso a Portugal  ( que se chamará, possivelmente, “O bunker de Lisboa”, ou  “A Pedreira dos Húngaros”. Não há, ainda,  um pré-pensamento  definido quanto a esta escolha).

Apresentamos aqui a informação obtida, com a reserva de ter sido conseguida por um  processo inteiramente inovador e  não inteiramente testado.      A.B.

                       

            O filme começa com a tomada de posse de Mário Viegas que foi eleito Presidente da República.

 

            A primeira imagem é a de um esquadrão de cavalaria da GNR que escolta o carro em que Mário Viegas se dirige para S. Bento.  Segue-se a chegada ao  palácio, a entrada no anfiteatro com todos os deputados de pé e o público a aplaudir, o discurso do Presidente da Assembleia , o discurso do novo Presidente, os cumprimentos do Corpo Diplomático . Há no exterior uma multidão (pequena) e  muitos carros a chegar, sendo destacado o papel dos arrumadores de carros.

 

         Entretanto, na Pedreira dos Húngaros, o morador Cesar Monteiro sobe a rampa de acesso ao bairro. Alguma crianças vêm falar com ele que lhes faz um carinho. Os moradores cumprimentam-no. Compreende-se que C.M., com o seu aspecto fragil e lentidão de movimentos, é uma pessoa querida e considerada .  Tem curtas falas com pessoas que vêm falar com ele, beija umas moças,  acaba por se ir sentar na esplanada de uma tasca onde desempenha funções de juiz e de chefe a arbitrar litígios.

 

            As  autoridades nacionais, entre elas o novo Presidente e o seu staff,  recebem num briefing  informações sobre o plano de defesa e actuação em caso de catastrofe: terramoto, guerra química, ou nuclear etc.

 

Todo o plano tem por base o comando das operações a partir de um bunker mandado construir no Monsanto pelo governo anterior.  Um chefe da Polícia explica, com larga soma de detalhes, os meios  existentes  no bunker onde se devem reunir as autoridades que ficarão a comandar o país em caso de catástrofe. 

 

            Vêm-se, entretanto,  algumas crianças da Pedreira dos Húngaros  que andam a explorar Monsanto e chegam à porta do bunker.

 

             O chefe da Polícia explica que o bunker esta fechado e só pode ser aberto por um sistema sofisticadíssimo. 

 

         Duas crianças falam à porta do bunker. Uma diz: “Aí não se pode entrar”. A outra pergunta: “Porquê?”.  A primeira responde: “Porque está fechado”.  A segunda criança empurra a porta e o bunker esta aberto.

 

            O Chefe da Polícia continua  a dar explicações, com grande ênfase nos sistemas de segurança, que vão alternando com imagens fugidias das crianças dentro do bunker.

 

            No momento em que o chefe da Polícia  explica que o bunker esta ligado por satélite  às televisões de toda a Europa e responde a uma pergunta sobre os mantimentos e o whisky  que lá há armazenados, há um tremendo tremor de terra em Lisboa  a que se seguem  várias cenas de pânico. 

 

         Com imensas dificuldades as autoridades tentam chegar ao bunker. Quando lá chegam,  já esta ocupado pela população  da Pedreira dos Hungaros  com uma segurança assegurada pelos arrumadores de carros que,  no meio da imensa confusão, organizaram um eficientíssimo sistema de parqueamento dos carros  a que as autoridades se têm de submeter.

 

            As autoridades pedem para entrar. A autorização demora porque só pode  ser dada por Cesar Monteiro que esta no interior a dar uma entrevista em directo para as  televisões  de  toda a Europa em que  assegura que a situação esta sob controle. 

 

 Chega o automovel da Presidência  com Mário Viegas e dois pneus furados.  Por especial deferência, um assessor de Cesar Monteiro  autoriza-o  a entrar para o bar, impecavelmente servido pelas moças da Pedreira dos Hungaros, que o tratam com todo o carinho e onde  bebe um copo de água.

 

            O chefe da Polícia  que fez o briefing  vai apresentar um relatório a Cesar Monteiro  a quem faz a continência.  Com alguns assessores, entre eles o General D, da Brandoa ,  Cesar Monteiro  toma medidas de excepcional  eficácia  para assegurar  a continuação da vida em Lisboa. 

 

            O Corpo Diplomático vai ao bunker apresentar cumprimentos a C.M. e assegurar-lhe apoio.  A imprensa internacional começa a falar de um novo Marquês de Pombal.

 

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            Passou-se um ano. 

 

A vida em Lisboa esta quase normalizada.  Um esquadrão de cavalaria dirige-se para S. Bento a  escoltar o carro de Cesar Monteiro que vai tomar posse com Presidente da República. Há algumas pequenas diferenças:  entre os deputados vêm-se muitas caras de antigos arrumadores de carros e  o  General D já esta fardado.

 

            Na Pedreira dos Hungaros, Mário Viegas sobe lentamente a rampa de acesso ao bairro.  Umas crianças vem-lhe falar  e ele faz-lhes um carinho. Umas moças vêm-lhe dar uma beijocas. Uns moradores que estão perto fazem-lhe um aceno.

 

            À porta de S. Bento, Pacheco Pereira tem agora um lugar de arrumador de carros.  O filme termina com esta imagem de optimismo e integração social.

 

(Este texto, foi enviado a Mário Viegas uma semana antes de morrer).  A.B.