A LIÇÃO SOBRE O GATO
 

     Tive ocasião de conhecer António Sérgio. A primeira vez que o vi creio ter sido numa sessão sobre cinema escolar, promovida pela Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, em que ele entrou e se veio sentar numa das últimas filas do anfiteatro.

        A sessão foi má, os filmes fracos e sem interesse. Mas o jovem a quem competia falar sobre o assunto desbobinou, na mesma, o seu discurso sobre o interesse do cinema escolar, depois de assistirmos a filmes, no mínimo, aborrecidos.

      António Sérgio não disse nada na sala, mas, à saida, houve um grupo de estudantes que o acompanhou, e viemos descendo a esplanada no Técnico, para ficarmos a falar no topo da Alameda.

      Falou-se do ensino e de pedagogia. António Sérgio relacionou o discurso desadaptado do jovem estudante com os cursos imutáveis dos velhos professores e com recordações suas.

      Contou que tinha sido presidente de num juri numa escola do Magistério Primário em que as candidatas tinham de apresentar uma monografia sobre métodos pedagógicos.

      Quando chegavam diante do juri, ele dizia-lhes: 

      - “ A senhora expõe e defende aqui métodos pedagógicos que considera bons. O que lhe peço é que improvise uma lição, sobre um tema qualquer, por exemplo, sobre o gato, em que aplique os métodos que preconiza.”

      As candidatas revelavam-se incapazes de utilizar e por em prática os métodos que tinham “aprendido” e que se propunham, inclusivé, transmitir.

      A trinta e cinco anos de distância, as palavras estão certamente alteradas, mas quero garantir que o exemplo da liçãso sobre o gato foi o exemplo dado por António Sérgio.

      Alguém perguntou o que havia a fazer com os velhos professores. (Nós, naquela altura, estávamos sempre a planear a sociedade futura e, como estudantes, preocupavam-nos os velhos professores esquecendo, naturalmente, os igualmente velhos estudantes.)

      Um eléctrico vinha a subir do lado da Praça do Chile e António Sérgio teve de dar uma corrida para o apanhar. Mas, já de longe, ainda nos disse:

      -“Esses, há que esperar que morram.”

      Guardo aquela imagem de juventude e de optimismo,de um velho a correr para um eléctrico. Dum espírito vivo a acreditar que as ideias jovens venceriam, que ganharia a juventude, que bastava esperar que os portadores das ideias velhas desaparecessem.

 

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      António Sérgio foi enterrado depois do 25 de Abril. Já não pela Censura, mas por camadas de burocratas obscurantistas, instalados nos Ministérios, nos partidos, e não poucas vezes nas próprias organizações da juventude, incapazes de visões críticas (do geral e do particular), hostis às ideias e a quem tem ideias, mutiladores de iniciativas, desconhecedores (muitas vezes voluntários) da História recente, que tornaram o nosso ensino, nalguns aspectos mais retrógrado, anquilosado e menos adaptado às necessidades do País, do que antigamente.

      São, no fundo, os velhos estudantes, tão velhos como os velhos professores, que nunca perceberam nem sentiram, que nas escolas se podem e devem dar lições sobre o gato, o trigo, a batata, o trânsito, o desemprego e a bolsa, sobre a música e sobre discotecas, sobre a política, sobre o País, sobre a cidade e sobre a própria escola. Lições para transmitir (poucos) conhecimentos, sobretudo, para fazer abrir os olhos e tornar as pessoas  capazes, elas próprios, de procurar, descobrir e saber fazer.

 

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    Nas vezes  que falei com António Sérgio, que não foram muitas, mas foram intensas em determinado momento, as conversas desenvolveram-se sempre à volta de problemas concretos. Não guardo recordação de lhe ter ouvido qualquer discurso de natureza cultural ou filosófica.  Era a sua maneira de tratar os problemas e de os situa, em que estava sempre presente uma crítica que parecia só quer remover as coisas para construir algo, que nos atraia. No seu relacionamento com os jovens, acho que procurava (e conseguia) um tipo de entendimento em que as explicações eram desnecessárias, mas que se devia traduzir na nossa maneira de agir.  Nele, o particular ilustrava o método e a teoria. Creio que, conscientemente, usava o exemplo como método de ensino do geral. Sentia-se nele uma aversão dos verbalismos vazios de significado concreto. São estes os ensinamentos que dele recolhi. Outros terão recolhido coisas diferentes.

 

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      O insucesso escolar nas nossas escolas é fundamentalmente devido a elas se terem afastado, em vez de se terem aproximado, das ideias de António Sérgio. Acho que ele desconfiaria dos longos discursos sobre Pedagogia e Democratização do ensino e se empenharia em procura exemplos concretos, que fossem exemplo, do que se pode fazer.     

      Por isso, neste momento, em que a melhoria do nosso ensino parece totalmente dependente dos créditos da CEE, pensei nele quando ouvi a pequena história que passo a transcrever.

      Quando o jovem Galileu se apercebeu de que a duração da oscilação de um pêndulo talvez não dependesse da amplitude, fez dois pêndulos iguais e pediu ao avô que o ajudasse. Puseram os dois pendulos a oscilar, um com pequenas oscilações e outro maiores, e enquanto ele contava as osculações de um o avô contava as do outro.

 Chama-se a isto, verdadeiramente, interrogar a Natureza. Que boa experiência a fazer nas escolas. A seguir, os alunos podem, por exemplo, procura saber –  é isso que é investigar – qual deve ser a relação entre o comprimento dos dois pêndulos para que o periodo de oscilação de um seja duplo do do outro.  Sobretudo, devem procurar descobro-lo antes de lerem a informação num livro. Material necessário: um carrinho de linhas.

(Texto escrito em 1990)

 

                        António Brotas