O SENHOR DIREITINHO

 


 

 

Conheci o senhor Direitinho em Marrocos, em Tanger. Era amigo do meu pai. Não sei onde se conheceram, mas eram verdadeiros amigos, o coronel e o velho anarquista.  Talvez o Sr. Direitinho tivesse estado no assalto ao Monsanto ocupado pelos monárquicos, em 1919, em que o meu pai, então estudante, levou um tiro numa perna. Se não foi nessa ocasião  terá sido noutra semelhante, ou, então, nem isso, encontraram-se já velhos e ficaram amigos.

            O meu pai foi o porta bandeira do Batalhão Académico então formado e que depois andou pelo Norte do país. A bandeira foi entregue ao Batalhão numa festa no Coliseu dos Recreios. Foi aberta uma excepção para os estudantes que tinham estado no Batalhão Académico e foi assim que o meu pai, que já tinha ultrapassado o limite de idade, entrou para a Academia Militar, então Escola de Guerra. 

Quarenta anos mais tarde quando, poucos  dias depois de  ter sido preso, o capitão Neves Graça, Inspector Superior da Pide, me mandou buscar ao Aljube para, numa sala de visitas da pide, me dizer, diante de um tio meu, que podia sair imediatamente em liberdade desde que prometesse “nunca mais escrever papeis” e eu lhe disse que não,  também ele, diante do meu tio abismado e de mim preso político feito ouvinte, começou a contar, possivelmente para se fazer passar por democrata ou, pelo menos, por republicano, que também ele tinha andado pelo Norte do país no Batalhão Académico.  As voltas que o Mundo dá!

 

O Senhor Direitinho era o mais antigo emigrado político português. Sendo soldado em Évora, ou Beja, soldado e anarquista, ou, mais exactamente, anarquista e soldado, uma associação popular  convidou-o para  ir lá falar e ele fez uma conferência com o título: “O HOMEM, NO PASSADO, NO  PRESENTE E NO FUTURO”. Quando   comandante do regimento o soube, dispos-se a  castiga-lo. Ele deixou, então, a espingarda, o capacete, o sabre e o equipamento  muito bem arrumados e desertou para Espanha e nunca mais voltou a Portugal. Ele próprio era um bocado de Portugal que andava por lá fora.

Quando veio a guerra de Espanha foi locutor numa rádio e no fim teve de andar escondido. Ainda conseguiu durante um tempo  trabalhar num estaleiro, mas foi denunciado e esteve em sério risco de ser fuzilado.  Teve a sorte do adido militar português em Valência ser  um oficial do seu antigo regimento que, ao sabe-lo preso, intercedeu por ele. Os espanhois, por gentileza,  condenaram-no só a prisão perpétua.

Cerca de dois anos depois foi posto em liberdade. Com as prisões a abarrotar, os presos tinham uma forte probabilidade de serem fuzilados, ou de serem libertados  pouco depois.  Foi, então, para Marrocos onde mais tarde o encontrei.

Da primeira vez que  lá fui   para encontrar  o meu pai não o cheguei a  conhecer, o que foi pena. Ele ter-nos-ia dado bons contactos  e conselhos  quando lá voltei  para  encontrar o Manuel Serra que preparava o que veio ser a acção de Beja.  (Registo o armamento que o Manuel Serra  tinha na altura: uma pistola “Parabelum” do Capitão Galvão que tinha feito a primeira Grande Guerra, e uma pistolão calibre 45, mas só com 4 cartuchos).

Só numa terceira viagem  encontrei e conheci o Sr. Direitinho. Ele contou-me muitas histórias que não são todas para contar. Visitei-o depois, em Madrid, uns anos mais tarde, e ainda o encontrei cheio de energia e interessado por um trabalho que tencionava ir fazer na Biblioteca Central.  Ele mostrou-me, na altura, uma preciosidade: uma coleção completa, com cerca de  50 números, da “Novela Sucesso”, publicação semanal que  tinha editado em Portugal, em 1923. Fui  à Biblioteca Nacional há dias e vi que estão lá, pelo menos, alguns números (com os registos: L. 28650//2P e L.30581//3P).

 O Senhor Direitinho, anarquista, tinha criado, como se diz agora, o seu posto de trabalho. Convidava jovens escritores a escrever uma novela e artistas gráficos para ilustrar a capa, pagava-lhes, e editava a sua “Novela Sucesso”, que ia vender nos quiosques, sobretudo das estações de Caminho de Ferro. Editou assim Ferreira de Castro e outros, alguns pela primeira vez.  As “Novela Sucesso” talvez mereçam uma tese. Transcrevo do Volume III da História de Portugal de Oliveira Marques a referência à época: “Vários editores se dedicaram à tarefa de espalhar cultura mediante a publicação de livros baratos com obras portuguesas e internacionais" .

O Senhor Direitinho, possivelmente, fez mais pela cultura portuguesa que muitos outros depois condecorados e decorados. Mas, a mim, o que me toca mais, é o  título da conferência que proferiu há 80 anos em Beja : “O HOMEM, NO PASSADO,NO PRESENTE E NO FUTUTO” . Não ouvi o que disse, mas basta-me o título para me transmitir o conforto de sentir que aquilo que andamos por aqui a fazer não são coisas desconexas. Os  textos mais ou menos jornalísticos que, de vez em quando, por aqui escrevo, são meras ilustrações do grande tema, do tema único, abordado na sua última conferência em Portugal  pelo Senhor Direitinho, anarquista, emigrado político do tempo da República.  

                        A.B.