O Soldado Morto

        ( Inspirado no conto  “O cerro dos enforcados”)

 

            Personagens principais:

 

            O soldado João

 

            O velho António

 

            Maria, filha de António

 

            O proprietário

 

            Manuel, o soldado do 25 de Abril.

 

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                Um grupo de camponeses trabalha nas ceifas. Trabalha entre eles fardado o soldado João.  Maria, moça jovem e bonita, anda  a distribuir água entre eles. Em certa altura  João pede: “ Maria, dá-me uma pinga de água.” Olham-se nos olhos e há um riso alegre entre ambos.  A cena não é muito demorada e Maria continua a dar água aos outros camponeses.          

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            A casa de António, velho rendeiro, é próxima do local onde trabalham os camponeses.  Chega o proprietário das terras num carro grande para receber a renda de António.  António diz que o ano foi mau e que só tem o dinheiro de meia renda. Pede um adiamento para pagar o resto.  O proprietário mostra-se duro, humilha-o, mas não é  mau de todo e concede-lhe um curto prazo para pagamento do que falta. Apresenta isto como um grande favor e diz que, findo o prazo, será intransigente.

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            O proprietário sai de casa de António. Está francamente satisfeito. Não propriamente pelo dinheiro que mete na carteira e a que atribui pouca importância, mas por todo um bem estar que sente. Está um bonito dia de sol e o proprietário como quer se espreguiça. ( o não ter sido de todo mau contribui, talvez ,  para o seu bem estar e fá-lo sentir ter direito a uma compensação.) Fixa então o olhar num  grupo de camponesas que está um pouco afastado e, sempre com o olhar fixo nelas  dirige-se para o carro.

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            No carro o  proprietário anda lentamente  no meio das camponesas que estão um pouco dispersas.  Lança-lhes um olhar lúbrico. Faz uma escolha.  Nas camponesas há reacções diversas, que vão da absoluta condenação e repúdio  com movimentos de defesa e afastamento, até à atracção e desejo de ser escolhida. Não há palavras. Tudo se passa com olhares, movimentos e gestos.  

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            A certa altura, o proprietário para o carro, sai e fica em pé junto à porta a fitar três camponesas, que estão paradas em frente.  É uma cena intensa de escolha, atracção,  domínio, fuga, desejo, intimidação e vergonha (esta só do lado das camponesas).  A cena é simultaneamente real e falsa. Real nos gestos, olhares e comportamento dos personagens dois a dois. Falsa, no facto de se desenrolar perto de um grupo (que é ignorado) e não num local isolado.

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            O proprietário decide-se por uma das camponesas. Com um gesto da cabeça manda-a entrar para o carro. (Um ritmo rápido alterna com o anterior ritmo lento). A camponesa dominada e atraída , mas também receosa e envergonhada, entra no carro em que se senta encolhida e meio escondida, sem ousar olhar para fora  - inclina a cabeça para baixo e para a esquerda. (Nesta cena o carro, um modelo antigo e grande, desempenha um papel fundamental transmitindo uma ideia de poderio e força).

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            O proprietário entra no carro e, sem olhar a camponesa, seguro e sem se importar com o que se passa fora, inicia uma manobra que inclui uma volta e uma marcha atrás para vir embora.  De relance, através dos vidros do carro, vêm-se expressões de franca condenação de parte das mulheres e mesmo de alguma revolta de alguns homens que entretanto se aproximaram. 

            O carro, no entanto, afasta-se com o proprietário seguro e indiferente, depois de ter feito a manobra.

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            O carro entra na estrada e ia aumentar a velocidade  quando encontra pela frente o soldado João que lhe barra a passagem.  O proprietário é obrigado a parar a 3 ou 4 metros do soldado João. Durante um longo momento, olha-o com um misto de raiva e ameaça prestes a explodir ( e também  alguma surpresa). 

A atitude e olhar do soldado João, que se mantém direito e sem um gesto são de firmeza e calma.  A cena é demorada e com um crescendo de anunciada violência.  O proprietário sai do carro e, primeiro num impulso e, depois, mais lentamente, dirige-se para o soldado João.  Para a pouco mais de um metro dele e fita-o com uma expressão de zanga e ameaça que  passa a desafio. João mantém-se calmo e aguenta o olhar com uma expressão em que, lentamente, se começa a adivinhar uma resposta. (É preciso que os espectadores acreditem que vai haver uma luta).

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A tensão é quebrada pela camponesa que, bruscamente, sai do carro e se refugia junto das companheiras que a acolhem.  O proprietário volta para o carro e senta-se ao volante algo desamparado e descontrolado.  O soldado João desloca-se para o lado direito e, com um gesto do braço esquerdo, que lembra vagamente o passo de um toureiro, indica ao proprietário que pode seguir.  Este, agora francamente humilhado e desorientado arranca, mas lança ainda um olhar de raiva a João antes de se afastar.

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     (Cena interior em que há pelo menos uma mesa e várias cadeiras , que poderá ser no interior da casa do António ou, noutra versão, numa taberna ou mesmo num café).

 

            Presentes vários homens dos que trabalhavam no campo, o velho António e Maria,  que está em pé junto a uma parede sem nunca falar. João está presente desde o início. ( Há a impressão de que chegou pouco antes).  Está fardado com uma farda mais nova do que a que usou no campo. Diz, com uma voz em que se nota emoção,  que foi mobilizado para ir para a guerra em África. Um dos homens pergunta-lhe para onde ele vai e ele responde. “Para Angola”.

Todos dão  importância ao assunto. Apertam-lhe as mãos e desejam-lhe boa sorte.  O velho António, sobretudo, está vivamente emocionado. Diz: “Dá cá um grande abraço, rapaz”. 

João, emocionado tem quase lágrimas nos olhos. De longe, despede-se de Maria, que esteve sempre em pé junto à parede com um gesto bonito da mão esquerda e diz: “Adeus, Maria”.

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Documentário de soldados que embarcam para a guerra em Lisboa.

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            Desfile de tropas em Luanda.

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            Viaturas em picadas  em África. Marchas de colunas a pé. Cuidados com as minas.   Alguns tiros. Soldados fazem fogo deitados no capim .

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            Num acampamento João  escreve uma carta a António.

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            Mais algumas cenas da guerra em África.

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            No interior da sua casa , António e alguns homens da cena anterior lêem alto a carta de João:

 “ Tio António,

  Não sabemos o que andamos aqui a fazer. Andamos a matar e a morrer”.

              Todos têm uma expressão preocupada.

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            Novas cenas (se possível documentários verdadeiros) da guerra em África com mais tiros e ataques das tropas portuguesas.

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            Cena muito curta em que João, que participa num ataque ( e é filmado sozinho, no início de baixo para cima)  é morto com um tiro. Cai de costas, com os braços abertos, num movimento propositadamente lento, com uma expressão de quase sossego no rosto.

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            Enterro de João no cemitério da terra.  Quando o caixão desce à terra não há discursos. Bastante povo que espera que o coveiro termine a campa e só depois retira. Entre eles está António envelhecido que se apoia na filha Maria.

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            António, muito alquebrado, e Maria vão pela estrada à saída do cemitério.   São abordados pelo proprietário que quase lhes dita ordens.  Depreende-se de que houve conversas anteriores. O proprietário diz. “ Você não pode pagar. Paciência, homem. Dai não vem mal ao mundo. Mas eu preciso da rapariga a servir lá em casa”.

Tem um riso que pretende ser simpático. Dá um toque no ombro do velho que está profundamente inferiorizado. “Então, homem, coragem”.  Chega a parecer simpático. Lança com o olhar um pedido de apoio a Maria que não corresponde, mas que, com gestos e carinho, procura também auxiliar o pai.  Na expressão de Maria há, talvez,  uma muito ténue expressão de atracção pelo proprietário que tem uma boa figura de homem e, naquele momento, parece mesmo simpático.

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Passou-se tempo. Um ano ou talvez dois. ( A ideia pode ser sugerida pela sucessão das estações,  ou por trabalhos nos campos).

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Maria, agora feita mais mulher, trabalha na cozinha da casa do proprietário. É bastante activa e actua com autoridade. Dá ordens numa rapariguita (Joana) que a auxilia.  Batem à porta. É o velho António mais alquebrado e desamparado. Maria recebe-o com muito carinho. Senta-o a uma mesa e dá-lhe de comer.

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Aparece o proprietário à porta da cozinha e vendo o velho diz. “Não o quero ver por cá”. Maria responde de um modo desabrido: “É o meu pai”. O proprietário replica: “Bom, mas o jantar que não demore”. Maria aconchega o mais possível o pai. Mete-lhe comida num saco e dinheiro na carteira, que ele não quer aceitar. Mas tem de o acompanhar à porta e despedir-se dele rapidamente.

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   Maria serve o jantar ao proprietário que come sozinho e aparentemente quase a ignora. Como devagar e com agrado, com uma expressão de quem está satisfeito (não demasiado acentuada). Levanta-se e, depois de limpar os lábios com um guardanapo, diz. “Traga-me um café e um bagaço”.

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O proprietário, agora sentado num sofá, bebe o café.  Maria está, em pé, ao lado, com uma bandeja com o bagaço.  Quando ele termina o café coloca a chávena na bandeja que ela baixa, e pega no bagaço.  Percebe-se que são gestos já habituais. Ele não a olha enquanto bebe o bagaço, mas percebe-se que pensa nela e sente ao seu lado a presença da mulher à sua disposição. Ela vagueia o olhar pela sala . Olha-o, às vezes com um grande distanciamento e alguma tristeza, mas percebe-se que também é tocada pela situação. A porta de um quarto está entreaberta e vê-se parcialmente uma cama de casal. Com grande violência compreende-se que Maria é amante do proprietário ou, mais exactamente, que ele se serve dela como amante. O proprietário dirige-se para o quarto e com um gesto dá-lhe  indicação para vir também.

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O velho António regressa a casa. É agora um farrapo. Alguns camponeses que se cruzam com ele dizem: “ Boa noite tio António”. A voz sumida com que responde revela toda a sua fraqueza e desespero.

Entra em casa. Está só. Os seus gestos revelam algum desequilíbrio. Pega numa garrafa e enche um copo. Trá-lo para uma mesa e senta-se a beber sozinho. A sua expressão revela profunda tristeza.  Bebe o copo até meio e depois começa a chorar em silêncio com a cabeça entre os braços.

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Batem à porta. António não reage.  Batem de novo. António levanta lentamente a cabeça. Tem os olhos de quem chorou. Com  uma expressão de cansaço  e indiferênça diz: “Entre quem é”.

A porta abre-se e entra o soldado João com a farda de África.

António surpreso diz. “Tu, João?”.  João diz: “Os soldados mortos continuam a viver na recordação dos amigos. Vim visitar-te”.

António diz: “Estou velho e cansado”. João senta-se em frente de António e diz-lhe: “Estás vivo, António”.

António diz: ”Estou só”. João diz-lhe: “Não António, há o povo”.

António tem um ligeiro sorriso. A sua expressão acalma-se e torna-se quase feliz. Depois, baixa a cabeça entre os braços e adormece. João continua sentado em frente , amparando-lhe os ombros, como que a dar-lhe protecção.

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Cena que começa em absoluto silêncio, em que só se vê um campo com uma estrada. (O povo está presente pela absoluta ausência).

 

Começa-se a ouvir a marcha cadenciada que antecede a “Grandola Vila Morena”.  No momento em que rompem os versos, vê-se uma auto-metralhadora que se desloca na estrada da direita para a esquerda.  Vê-se depois uma coluna militar de viaturas. As imagens sucedem-se a um ritmo rápido. As viaturas são focadas de perto e compreende-se que trazem soldados para a revolução. As imagens engrenam com as imagens reais do 25 de Abril culminando com a imagem (real)  de um soldado em cima de uma “chaimite” com a espingarda levantada ao alto depois da rendição do quartel do Carmo.

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Vêm-se  depois imagens do 1º de Maio de 1974 em Lisboa.

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Há um soldado novo, o soldado Manuel ( o soldado do 25 de Abril) que regressa à terra . (A mesma do soldado João). Vem perla estrada. Vem fardado. Na lapela trás um cravo. Os camponeses  saúdam-no alegremente.

 

Há um ajuntamento que barra a passagem do automóvel do proprietário, que está  muito atarantado  mas a quem as pessoas pouco ligam.  Mais adiante há uma qualquer questão (que não é focada de perto) e quase todos têm as costas voltadas para o automóvel.  Maria, sentada no banco de trás olha curiosa. Chega o soldado Manuel.

Olham-se os dois nos olhos e há uma imediata relação de entendimento entre os dois. Ela baixa o vidro da janela num primeiro movimento de libertação. Ele oferece-lhe o cravo.

“Como te chamas?” . “Maria” . “E tu?” “Manuel”.

 

O proprietário consegue, finalmente, desenvencilhar o carro. Manuel e Maria fazem, simultaneamente um aceno de despedida.

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Maria e o proprietário estão agora os dois na sala. Maria cheira o cravo. O proprietário raivoso arranca-lho da mão e deita-o ao chão. Maria vira-lhe as costas , entra no quarto dela e fecha a porta. O proprietário tenta entrar, mas a porta está fechada à chave e não consegue. Compreende-se que Maria não será mais sua amante.

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Cena nos campos filmada a alguma distância. Não se ouvem palavras, pelo menos no início. O carro do proprietário esta cercado por camponeses que falam com ele. Compreende-se que há uma disputa.  Entre os camponeses , e actuando com algum destaque, está o soldado Manuel agora tractorista de um tractor que está perto. Entre ele e o proprietário há um confronto quase directo. O proprietário é obrigado a retirar-se e compreende-se que não conseguiu o que queria.

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Nova cena em casa. Maria serve o jantar do proprietário que está francamente irritado, que  parece bufar e lança olhares lascivos e de zanga a Maria.  Maria está perfeitamente calma e segura e controla a situação. As suas relações com o proprietário mudaram completamente. Actuando profissionalmente levanta a mesa e vai para a cozinha.  Na cozinha arruma as coisas com eficácia e precisão.

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De súbito, o proprietário aparece à porta. Está lascivo e descontrolado. Vê-se que deseja aquela mulher. Da porta da cozinha, com um movimento de cabeça que  pretende ser autoritário, indica-lhe para vir para dentro. Ela não tem medo nenhum. A sua postura é de segurança e recusa total. Tem um sorriso nos olhos irónico e feliz. Quase se ri dele. Com um ar quase brejeiro e sem se importar com ele vira-lhe as costas e vai para uma janela onde fica a olhar para fora.

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O proprietário fica à porta da cozinha, incapaz de avançar e surpreso de a ver olhar para fora. Passa-lhe pelos olhos uma expressão de suspeita e ciúme. Bruscamente, volta à sala para ver por uma janela para onde Maria está a olhar. De pé, junto à parede em frente, está Manuel. Ele e Maria namoram-se.

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Tomado de raiva e de ciúme o proprietário senta-se a uma mesa com os cotovelos em cima e as mãos apertadas junto à boca.  Treme de raiva. Em certa altura, levanta-se e vai a uma gaveta buscar uma pistola. Vai espreitar à janela, mas o Manuel já não está lá. Vê-se que pensa em algo. Depois, já mais calmo, vai-se deitar.

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No dia seguinte, num canto do quintal, o proprietário fala com um criado com ar de capanga. Não se ouvem as palavras, mas percebe-se que lhe dá instruções. O outro faz sinais de compreensão.

(A casa é uma casa citadina com um quintal com uma porta para a rua. )

Acompanhado pelo criado, que fica um bocado distante, o proprietário calmo e frio dirige-se a Maria que está a trabalhar e diz-lhe:

“Preciso que mande chamar o seu pai. Tem alguém que lhe leve um recado?”

Maria responde: “Sim. O irmão de Joana pode leva-lo”.

“Mande chama-lo”.

“Joana. Vai chamar o teu irmão”.

 

O proprietário dá uma caneta a Maria e diz-lhe:

“Escreva. Faz favor”.

Maria, embora achando um pouco estranho, obedece.

O proprietário dita:

“Preciso que me venha ver esta noite. Entre pela porta do quintal que estará aberta” . Maria cada vez mais desconfiada escreve.

O proprietário diz-lhe: “Assine”. Ela hesita mas acaba por assinar.

O proprietário pega no papel, lê e faz o comentário: “Está bem”. Depois chama o capanga e diz-lhe: “Conheces aquele tratorista chamado Manuel? Vai-lhe entregar este recado”.

 

Maria compreende que caiu numa armadilha e tenta recuperar o papel, mas os dois dominam-na com violência e sequestram-na na cave. A cena é presenciada pelo irmão da Joana que chegara sem ser notado e se esconde.

 

O ambiente agora é de crime. O capanga passa pelo miúdo atemorizado sem o notar. Vai buscar uma motoreta e parte.  O miúdo procura Maria na cave. Através da porta ele pede-lhe para ira avisar o Manuel, para não vir porque há uma traição, mas ele não o conhece. Ela pede-lhe, então, para ir avisar o pai.

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O capanga segue pela estrada na motoreta.

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O miúdo sai da casa a correr.

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O capanga encontra o Manuel que está a regressar do trabalho com o tractor. Aborda-o e diz-lhe: “A Maria manda-lhe este recado”. Ele responde: ”Obrigado”.

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O miúdo corre através dos campos.

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O Manuel vai guardar o tractor.

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 O miúdo afogante consegue chegar a casa de António. Tem dificuldade em lhe transmitir a mensagem.

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António sai para avisar o Manuel. Vê-o ao longe, mas Manuel já guardou o tractor e afasta-se. António faz um esforço para o alcançar mas não consegue e cai com um possível ataque. É ao cair da noite. 

Manuel afasta-se.

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Há um momento de silêncio.  Vêm-se os passos de um homem que se aproxima de António, que está caido e inconsciente. Abaixa-se e pega-lhe ao colo. É o soldado João.

( A imagem do soldado João com António ao colo é a imagem mais representativa do filme)

 

João leva António para casa. Deita-o com cuidado na cama e diz-lhe: ”Dorme , António”.

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É noite.  Já na povoação, Manuel, numa passada rápida, dirige-se para o encontro. Há um ambiente de drama e de perigo iminente. 

No trajecto, iluminado por um candeeiro e ainda  com a farda de África está o soldado João. 

Há uma troca de palavras entre ambos, mais ou menos semelhante à do cavaleiro com o enforcado, quando se dirige para o encontro no conto “O cerro dos enforcados”.

João convence Manuel a deixa-lo entrar na casa em seu lugar.

João retoma a marcha de Manuel.

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O proprietário está escondido no quintal à espera. João abre a porta e entra. O proprietário dá-lhe três tiros quase à queima roupa.  João fica imóvel. O proprietário dá mais um tiro e João cai lentamente com o mesmo movimento com que morreu e África.  O proprietário aproxima-se e, ao reconhecer João, fica aterrorizado e refugia-se num canto em posição fetal.

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No dia seguinte no quintal foi encontrado o cadáver do proprietário. Estão presentes as autoridades. Pela porta do quintal espreitam várias pessoas. Um agente da polícia, que esteve a esgravatar num muro diz: “Deu quatro “tiros”.

Uma velha que está junto à porta diz. ”Foi uma alma do outro mundo”.

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Nos campos. Intervalo do almoço. João interrompe o trabalho com o tractor. E dirige-se para a casa (que pode ser um anexo da casa de António) , para a cantina onde Maria prepara o almoço para vários trabalhadores. É o primeiro a chegar.

 Diz: ”Maria dá-me uma pinga de água”. Pega num copo. Maria com um jarro deita-lhe água. Olham-se os dois nos olhos com o mesmo riso e gestos iguais aos de quando Maria deu água a João no início do filme.

O filme para com esta imagem

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Há um momento de silêncio. Começa-se a ouvir a marcha e, depois, os versos de “Grandola, vila morena” enquanto passam, por ordem inversa, as principais cenas do filme. A última, é a cena inicial em que Maria dá água a João.

 O filme  termina com esta imagem parada.