AS UNIVERSIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA
 

 

         AS UNIVERSIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA

 

Comunicação apresentada no Rio de Janeiro em 3 de Abril  de 1997

VII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO DAS UNIVERSIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA  (Rio de Janeiro, de  31/3 a 5/4 de 1997)

II TEMA - Paradigmas da Educação no Limear do Terceiro Milénio

 

                    UNIVERSIDADES E SOCIEDADE

 

                            António Brotas

 

         As universidades de língua portuguesa  espalhadas por três continentes, quatro contando com Macau, estão sujeitas em cada um deles a condicionalismos exteriores violentamente diferentes.

         A universidades brasileiras desenvolver-se-ão, certamente, no meio simultaneamente vasto e algo fechado dos horizontes sul-americanos. As  Universidades africanas irão descobrir  os seus horizontes africanos e estarão presas, possivelmente por um largo periodo, dos seus terriveis problemas de desenvolvimento. Nós, nas Universidades portuguesas, arriscamo-nos a ficar fechados em órbitas demasiado europeias.

         O que é que nos une?  Sem dívida a língua com o que ela contem de cultura, tradição e sentir comum.

         Nesta brevíssima intervenção pretendo falar de uma faceta fundamental das Universidades de língua portuguesa, que é a sua muito vincada tradição liberal e democrática.

         É algo que vem de longe. José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca do Brasil, foi lente da Universidade de Coimbra, professor de Metarlurgia, uma Ciência de ponta na época. Mas, além disso, organizou e comandou um batalhão académico quando da luta contra as invasões francesas.  O Imperador  D. Pedro I,  D. Pedro IV  para nós,  é o exemplo, possivelmente  único na História, de alguém que tendo dado o grito de independência de um país em que foi Imperador, abdicou, e foi depois lutar no país de origem, à frente dos chamados 6 mil bravos do Mindelo que desembarcaram na cidade do Porto onde estiveram cercados um ano, para depois, ao fim de uma longa luta, restabelecerem o liberalismo em Portugal.

         Portugal, e muito em particular a Universidade de Coimbra, foram durante todo o século XIX centros vivos de ideias liberais e democráticas.  Os bachareis brasileiros formados em Coimbra no século XIX não foram, pois, só lá  aprender umas vagas luzes jurídicas. Foram, sobretudo, conviver num dos mais vivos centro de ideias liberais da época. 

         Não sou historiador e não vou alargar o tema, mas vou falar de algo de que fui testemunha e foi de imensa importância para mim. Refiro-me ao deslumbramento que tive quando, em 1963, emigrado político português, cheguei ao Recife e vi pela primeira vez um país de língua portuguesa a viver em democracia.

         Era o Nordeste, onde o latifúndio estava a ser posto em causa, onde a Universidade se empenhava nas campanhas de alfabetização de Paulo Freire, com sindicatos livres, onde era tratado por cidadão António.  Era, sobretudo, o sonho de um grande Brasil a acreditar em si próprio, com uma imprensa em que tudo se discutia, em que os estudantes se empenhavam e ligavam o seu futuro a projectos como os da Electrobrás e da Minerobrás.

         Do Recife, onde só passei ano e meio, guardo imagens que me acompanharão toda a vida.  São recordações que me impõem, também, uma obrigação que cumpro aqui, diante desta assembleia de universitários de língua  portuguesa, que é a de falar de dois jovens estudantes brasileiros,  jovens porque morreram jovens, que hoje seriam homens de 50 e poucos anos.

         Fui há dois dias à Biblioteca Nacional fazer uma pesquiza para lhes encontrar os nomes e encontrei-os num velho jornal do Recife.  São eles : Ivan Rodrigues de Aguiar , de 23 anos, e Jonas José de Albuquerque Barros, de 17 anos, que morreram no dia 1 de Abril de 1964  nas ruas do Recife, acho que posso dizer pela liberdade do  Brasil.

         Podia falar-vos , em primeira mão, do que sucedeu nesse dia no Recife, de aspectos até inéditos, mas seria falar do episódio. Podemos passar por cima disso.

         Mas há recordações. Faz hoje exactamente  33 anos que acompanhei a um cemitério do Recife o enterro de um desses jovens.  Lembro-me, para além das imagens, do que disse o padre oficiante, professor da Universidade. Não me lembro das frases, lembro-me só de  que falou longamente dos anjos, o que me pareceu estranho e irreal. Levei  anos a entender. Se me recordo hoje, é porque foi um momento excepcional da vida de um país. Falar dos anjos só é possivel num país com uma antiga cultura. É falar de algo que está fora das regras e do tempo dos homens, de algo que, sendo um começo, continua para sempre. Acho que foi por isso que aquele professor da Universidade do Recife falou nos anjos, naquele cemitério em que ia a enterrar um dos primeiros mortos de uma luta que ia ser longa e dura.

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         As Universidades são de todas as grandes instituições actuais as mais vocacionadas para se pensarem a elas próprias e, talvez - não estou inteiramente certo  - as mais capazes de influenciarem a prazo o mundo em volta.

         No Recife aprendi que é absolutamente impossivel pensar uma Universidade sem pensar um país.  Permito-me, neste encontro em que procuramos pensar o começo do próximo milénio, olhar o presente e o futuro próximo com os olhos do Recife de 1964.

         Olhando para o mundo,  para a Europa, nós sabemos, embora raramente se fale nisso -  penso que não foi falado neste encontro -  que um problema premente,  um problema central da Europa no princípio do próximo milénio vai ser o do desemprego dos universitários.   E  quando olhamos o Brasil, sabemos que, no início do próximo milénio, um problema central do Brasil vai ser o dos sem terra e do desemprego dos universitários.   Separar uma coisa de outra é nada perceber do que é uma Universidade e nada perceber do que é um país.

         O próximo milénio vai ser o da globalização . Mas que globalização? A do crash da civilisação, do desenvolvimento da técnica e da padronização dos homens, ou uma globalização da diversidade, onde nos seja possivel guardar a alma, como já ouvi dizer neste encontro?

         Penso que as Universidades de língua portuguesa estão razoavelmente bem apetrachadas para aceitar e vencer o desafio, porque  temos poetas e romancistas e lhes  damos valor .

         Temos de ser realistas. Os povos de língua portuguesa e espanhola  atrasaram-se, por razões que não vamos agora analisar, na fase  da  civilização em que o ferro e o carvão (e Newton) deram a alguns povos uma superioridade com que dominaram outros.  Mas estamos a entrar na civilização da informática, podemos dizer do software, que poderá, talvez, ser  mais em nosso favor porque mais espalhada pela Terra.

         Os estudantes dos paises pobres que estudam Ciências, inclusivé nos Estados Unidos, mostram que estes paises estão a aceitar o desafio de procurar estar presentes no campo da Ciência no próximo milénio.

         Mas a Ciência só não chega. O Senhor Ministro da Educação e dos Desportos do Brasil  disse aqui, neste encontro, que um dos problemas centrais do Brasil é o da preservação das suas riquezas.  Sem dúvida tem razão. Sem o domínio dos seus espaços e das suas riquezas a cultura e a civilização dos povos tendem a minguar. Por isso, sem dúvida,  um   problema central do Brasil, neste momento, é o da privatização da Varig, do Vale Doce, de outras empresas mineiras, da Petrobrás e  das  Telecomunicações.

          Há hoje uma realidade  central no planeta. Há,  digamos, uma esfera virtual de 40 triliões de dolares que circulam nas bolsas, comandados não sabemos por quem,  mas certamente não por portugueses, africanos ou brasileiros. A defesa dos interesses nacionais  nos  paises democráticos passa por os  governos, apoiados em estruturas da sociedade,  manterem o controle e o comando de alavancas estratégicas e,  oferecendo resistência, não  deixarem de todo passar o dominio da vida dos cidadãos, das nossas vidas,   para as mãos das  grandes  empresas desse  capital de natureza nova que circula nessa   esfera virtual.

          As Universidades, pela sua natureza,  têm um papel central nesta resistência. Porque estão cheias de gente jovem, e  porque lhes compete não esquecer o passado, olhar os problemas, e inventar e apresentar  propostas para o futuro. Porque estão abertas ao exterior e porque, por dever, devem estar em consonância com os seus povos. Em particular, podem  usar a sua experiência e os laços  de   relacionamento entre Universidades para propor e desenvolver mais formas  de relacionamento entre os povos .

          Seja-me permitido exprimir aqui  um sentimento: felizmente para nós, portugueses, existe o Brasil.

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         Uma palavra para  os nossos companheiros africanos. Embora sem universidades antigas,  a luta pela independência dos seus paises  teve  uma forte componente universitária , e bem localizada, na então chamada Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, por onde passaram  muitos  dos que vieram a fundar  os movimentos de libertação.  Um elemento importante da luta pela independência  das antigas colónias portuguesas foi, sem dúvida, uma coletânea  de poemas de expressão portuguesa de poetas africanos . Foram esses poemas que primeiro alertaram os estudantes portugueses de Portugal para o problema da nacionalidade e do direito à independência dos povos africanos. Às suas escolas compete, agora e no futuro, contribuir para o desenvolvimento dos seus paises e trazer a África ao encontro dos povos. .   

         Queria terminar com o voto de que, num  próximo  encontro, estejam presentes  representantes de Goa e de Timor.  Os goeses falarão possivelmente  inglês.  Não tem inconveniente. A cultura ultrapassa a língua  e a cultura portuguesa é um fragmento pequeno, mas presente,  na grande cultura indiana. Portanto, se vierem aqui goeses a falar inglês,  eles serão a expressão de um espaço onde a cultura portuguesa encontrou outras culturas.

         De um espaço e, de certo modo de um tempo, de um século, o século  XVI, em que  houve globalidade. Os portugueses foram a todos os cantos da Terra e houve  um momento na História em que os povos se encontraram em condições igualdade.   Que nos pode inspirar na procura de uma   globalidade em pé de igualdade que todos desejamos.

 

                                       António Brotas

Professor da Universidade Técnica de Lisboa . Secretário de Estado do Ensino Superior e Investigação Científica do 6º Gov. Provisório Português (75/76).Antigo Professor da Universidade do Recife (1963/64)